segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

   A vida é injusta! Passo algumas noites a pensar em como seriam as coisas se certas injustiças não tivessem acontecido. E mesmo não tendo a certeza que a vida teria sido melhor, uma coisa é certa: teria sido tudo muito diferente.
 
   A morte, por norma, é o acontecimento mais difícil de compreender. Como é possível aceitar o fim de vida de alguém que nós amamos? Alguém com quem ainda não fizemos tanta coisa, a quem não dissemos tudo o que queríamos, que faz falta a tanta gente. Ainda eu não sabia falar e perdi alguém que, com toda a certeza, iria ter muita importância para mim (ainda mais do que aquela que teve). Como é que se explica que um ser humano que sempre foi conhecido por ser muito rígido com a sua família, chegando até a ser violento com a sua mulher e seus filhos tornando as suas vidas um pequeno inferno, no momento em que acalma, "aprende" a amar os seus e dedica todo o seu tempo para cuidar de mim com todos os cuidados e mimos que um bebé merece, acaba por morrer? E depois há aquelas conversas de família, em que se recorda aqueles que já não estão entre nós. E na altura de falar dele a história acaba por ser sempre a mesma: "Ele às vezes batia na tua avó, a tua bisavó até chegou a virar-se a ele com uma sachola. Ele dava-nos sovas descomunais e aos filhos dos vizinhos oferecia rebuçados todos os dias. E no Natal e nos aniversários ele dava-nos sempre um brinquedo, deixava-nos brincar durante aquele dia. No dia seguinte o brinquedo desaparecia, ele escondia-o e nunca mais o víamos. Mas Paulo, contigo foi diferente. O teu primeiro ano de vida foi passado com ele, de manhã até à noite. Ele brincava contigo, cuidava de ti. Levava-te para a cama de rede, deitava-se nela e tu dormias por cima dele. Se houve alguma pessoa que ele amou na sua vida foste tu". No final da última frase as lágrimas já correm sobre a cara de todos e eu fico sem saber o que pensar. Amo-o por aquilo que ele foi comigo mas não consigo perdoar aquilo que fez durante muito tempo a duas das pessoas que mais amo nesta vida, o meu pai e a minha avó. E por não conseguir perdoar é que gostava que ele ainda estivesse entre nós, eu acredito que ele iria redimir-se de tudo que fez e que toda a gente ia adorar a pessoa que ele se tornou após o meu nascimento. E não sei se a sua existência tornaria a minha vida melhor, mas com toda a certeza que a tornaria diferente.

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